quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Basta o essencial!


O essencial faz a vida valer a pena. Basta o essencial!
- Ricardo Gondim

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltavam poucas, rói o caroço. 
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. 

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. 
Já não tenho tempo para conversas intermináveis para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. 
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas. 
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral ou semelhante bobagem, seja ela qual for. 
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa... 
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado de Deus. 
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. 
O essencial faz a vida valer a pena. Basta o essencial!


Para meu tio Amor, José Ariovaldo. Com afeto.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

MÃOS QUE CONTAM...

"Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno."
Rubem Alves

As mãos acolhem o livro. Selecionam a história. Recebem os ouvintes, um grupo de Servidores Públicos Municipais que estão se preparando para a aposentadoria. 
Minhas mãos distribuem  ao centro do grupo sementes de Girassóis. Neste momento, tenho mãos de jardineira. Estou ali para "florestar corações"... E é assim que me apresento.
Carol Spieker, minha companheira no projeto "Rios da Alegria" tem as mãos inquietas. São instrumentos no ofício que tão bem representa. Mostra, gesticula, aponta... Encanta! Sua mão exibe seu compromisso com o Arte. Amor incondicional. As mãos que contam histórias movimentam Carol de um cenário imaginário a outro. A plateia vai com ela.
Minhas mãos demonstram meu entusiasmo. Quentes e úmidas pela emoção, complementam minhas ideias. Falo de uma FLOR AMARELA, teimosa...persistente. Falo ainda do homem que a encontra, vê na florzinha indefesa um obstáculo no seu caminho, que precisa ser enfrentado a qualquer custo. Esperança. Entusiasmo. A identificação de quem ouve pode ser observada também pelas mãos que descansam agora sob o colo, soltas... ou unidas. Seria uma prece inconsciente em defesa da flor?
Minha próxima história fala de uma Pipa. Relato colhido no quintal de uma Escola da Terra. Conheci as mãos do pequeno Ivan, protagonista da minha história, que "deram vida" ao brinquedo de papel de seda colorido...objeto animado do relato. E também a Escola. Palco dos voos mais altos que já pude sonhar... Um céu, onde podíamos fazer voar a alegria, a liberdade e a fantasia. Minhas mãos voam na lembrança de uma pipa no céu. Neste momento, as mãos de quem me ouve deslizam pelo rosto. As pipas de cada um, soltas ao longo da vida, são lembradas. Desapego. Mãos tentam conter uma lágrima teimosa, escorrendo emoção.
Neste momento, Seu Jairo aponta sua mão para os colegas chamando a minha atenção. "Olha ao teu redor!"- Pediu ele. Seu Jairo fora morador de rua, em boa parte da vida. Hoje, pedreiro, aguarda também a aposentadoria. No chão, parte de nossos ouvintes,  confortavelmente seguram o queixo com as mãos... Visivelmente mergulhados nos relatos apresentados. 
Seu Jairo lembra que era assim que ele, primos e irmãos ouviam as histórias da avó, ao redor de um fogão a lenha. Histórias movidas pelas mãos dos pequenos ouvintes. Que alternadamente acariciavam a cabeça da contadora de história, num gostoso cafuné. Este era o combinado...os meninos só poderiam ouvir o final da história, se as pequenas mãos também prosseguissem no carinho.
Foi possível sentir aquelas mãos grossas de pedreiro, procurando na minha cabeça alguma outra história. Foi possível tocar o mundo com as mãos do outro. A enxergar a história do outro, mesmo que seja triste. Éramos a própria história contada, e pudemos tocar o outro que também se contou (e se encontrou) ali na mesma narrativa, pudemos ser então,  ao mesmo tempo, nós e o outro. E assim, neste espaço comum, com nossas emoções compartilhadas e nossa capacidade de buscar finais felizes, talvez pudemos tornar a nossa história – e a do outro - menos triste. 
Vistas por este prisma, narrativas podem mesmo iluminar quem está na escuridão? Podem ensinar algo a quem não quer nem saber? Aprendi, com Rubem Alves, que as palavras podem, sim, ser capazes de alegrar e trazer a primavera até para as areias e gelo... 
E quando isso acontece... 





segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Doce de AMIZADE e NOSTALGIA


"...E o meu encanto precisa de saudade.
E aquela tristeza, na espera do regresso,
que faz com que as minhas penas fiquem bonitas.
Se eu não for, não haverá saudade.
Eu deixarei de ser um pássaro encantado.
E tu deixarás de me amar."

in "A menina e o pássaro encantado"-Rubem Alves

Há quem diga que algumas almas são perfumadas. Então acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Amigos são assim. Perfumam muitas vidas com sua luz e suas cores. E o perfume é tão gostoso, tão branco, tão delicado, que se espalha pelo ar... Minhas lembranças mais preciosas, de alguma forma, mantém esse perfume de bem querer, que, numa temporada, se vestiu de Plätzchen, para me falar de AMIZADE.


Um amigo que veio de longe. Bochechas rosadas, abraço de puro aconchego e um português nada fluente. O alemão Wilfried Surges chegou no Brasil há dez anos. Conheceu a Escola Flor e se encantou. Desde então, nos surpreendeu sempre abusando das suas múltiplas habilidades para fazer a diferença na Escola. Ora entalhando em madeira o nome da escola, na confecção de uma placa. Ora presenteando-nos com um lindo pinheiro, do qual participou do plantio. Ora registrando belíssimas imagens poéticas captadas em nossos momentos de maior encantamento. Sempre emocionado...feliz. Mostrando-se desafiado em fazer o bem por aqui. Renate, sua dear frau e também companheira, embarca no entusiasmo de Wilfried... fazendo-se com ele, presente! Em uma das visitas a Escola, Wilfried mostrou-se nostálgico. Era final de ano e vestíamos a Escola a espera do Natal. Wilfried, com lágrimas no olhos, falou da sua terra, dos costumes natalinos, de uma época em que seus filhos ainda eram pequenos...as canções e o aroma característicos do Natal, espalhavam-se pelo ar. Contou-nos sobre um dos mais tradicionais doces da época natalina, o Plätzchen, bolachinhas dos mais variados tipos e formas e enfeitados de vários jeitos. O preparo do biscoito exige das famílias alemãs muitas horas na cozinha. Geralmente, se a família tem crianças, elas são as que mais se empolgam na confecção dos docinhos, tanto que são elas que ajudam a prepará-los. 

Coube ao término do relato emocionado, um abraço longo e afetuoso e ainda o convite: Trazer para a Escola Flor este aroma de saudade e amorosidade. No dia marcado, nosso amigo chegou munido de saborosas novidades. Casinhas feitas com um delicioso pão de mel, um cheiro gostoso foi deixando no ambiente um rastro perfumado pelo ar... Provocando brilho nos olhos e risinhos de contentamento na criançada. Wilfried trouxe uma grande variedade de confeitos de diferentes formas e cores. Além das casinhas, biscoitinhos avulsos, prevendo o desejo provocado nas crianças, antes da arte concluída. Munidos com um glacê-feito com açúcar de confeiteiro e suco de limão, as crianças foram abusando da criatividade e transformando as doces casinhas, que passaram a ficar coloridas e ainda mais apetitosas. A semelhança fez com que as crianças relacionassem os doces com a CASA DA BRUXA, da história João e Maria. 

Puro encantamento!

Tudo pronto. Nosso amigo passa entre a "Vila confeitada" peneirando açúcar branquinho, ao que as crianças exclamaram encantadas: "Neve!!!" Wilfried embarca na fantasia, com seu sotaque de todos os erres..."Agorra vamos comerrr antes que brrruxa chegue!" Crianças felizes! Nada poderia ser tão delicioso. Wilfried emocionado. Lágrimas de contentamento! Havia emprestado à Escola as cores das suas lembranças...da sua Alemanha. 

As cores da sua saudade...

Renate fotografou cada detalhe. Foram tantos os sorrisos. Das muitas imagens registradas, uma em especial foi escolhida para participar de um Concurso Fotográfico na Alemanha. Passados alguns meses, Wilfried retorna a Escola. Em suas mãos, um embrulho. A emoção quase o impede de falar. Em meio a aproximadamente vinte mil imagens inscritas, uma da vencedoras registrava um "Doce Momento"- A nossa pequena Isaura exibia nas mãos um biscoitinho por ela confeitado. Rosto iluminado com o mais lindo dos sorrisos. 

Sorriso este, premiado, que agora eternizava ali, toda nossa GRATIDÃO!


Para Wilfried e Renate, cuja amizade adoçam a minha Vida!

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sou CRIANÇA...Filha da NATUREZA. Tenho DIREITOS NATURAIS!


Rubem Alves, num de seus belos textos, fala sobre um Congresso em que ele foi na Itália e lá, distribuíram um folheto com os “Dez Direitos Naturais das Crianças” que, como ele, quero compartilhar com vocês.


São eles:




1. Direito ao ócio: Toda criança tem o direito de viver momentos de tempo não programado pelos adultos;



2. Direito a sujar-se: Toda criança tem o direito de brincar com a terra, a areia, a água, a lama, as pedras.

 

3. Direito aos sentidos: Toda criança tem o direito de sentir os gostos e os perfumes oferecidos pela natureza.


4. Direito ao diálogo: Toda criança tem o direito de falar sem ser interrompida, de ser levada a sério nas suas ideias, de ter explicações para suas dúvidas e de escutar uma fala mansa, sem gritos



5. Direito ao uso das mãos: Toda criança tem o direito de pregar pregos, de raspar madeira, de lixar, colar, modelar o barro, amarrar barbantes e cordas, de acender o fogo.


6. Direito a um bom início: Toda criança tem o direito de comer alimentos sãos desde o nascimento, de beber água limpa e respirar ar puro.




7. Direito à rua: Toda criança tem o direito de brincar na rua e na praça e de andar livremente pelos caminhos, sem medo de ser atropelada por motoristas que pensam 
que as vias lhes pertencem.

8. Direito à natureza selvagem: Toda criança tem o direito de construir uma cabana nos bosques, de ter um arbusto onde se esconder e árvores nas quais subir.


9. Direito ao silêncio: Toda criança tem o direito de escutar o rumor do vento, o canto dos pássaros, o murmúrio das águas. 




10. Direito à poesia: Toda criança tem o direito de ver o sol nascer e se pôr e de ver as estrelas e a lua."








Rubem Alves acrescentou o décimo primeiro direito ao qual eu me incorporo: "Todo adulto tem o direito de ser criança..."

Desejo que você  redescubra a delícia que é ser criança...
Porque, como disse Fernando Pessoa, "Grande é a poesia, a bondade e as danças... 
Mas o melhor do mundo são as crianças". 




quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Em dias de chuva...

Que tal fazer mais.... Muito mais. Mais do que reclamar da chuva!? Faça pipocas, faça graça, tome sorvete. Durma até mais tarde. Dê uma espreguiçada generosa. Tome um banho demorado. Dance. Compre flores. Ande descalça dentro de casa. Vista uma roupa folgadona. Retire a maquiagem. Releia o seu livro preferido. Escreva um poema. Coma chocolates. Converse com amigos. Conte um história. Pule poças d’água, suba as escadas no lugar de elevador. Teste uma receita nova. Faça artesanato. Pinte um quadro ou borde uma bagunça. Invente uma música. Escreva um verso. Pratique uma boa ação. Esqueça uma má ideia. Retire a mágoa. Despache a tristeza. Semeie um sorriso. Só por hoje, faça muitas coisas ou não faça nada. Se dê de presente um guarda chuva colorido. Troque a roupa, vire a página, mude a rima, atravesse a calçada, equilibre-se no meio fio da calçada, dobre a esquina, apague o texto, enxugue as lágrimas, quebre os discos, rasgue os bilhetes, troque a música, porque saudade não resolve as ausências, não muda a estação e nem a situação. Coloque a tristeza nos latões e não recicle sentimentos inventados. Use...abuse do poder de recomeçar e experimentar. Ande, ofereça,doe, mude de lugar, pinte, borde, resmungue, cante...mais alto! Repense, reflita, mude, altere, reveja, aceite, revide, resmungue, crie, levante-se, flutue, descanse. Se faça feliz. O depois é para amanhã. Em dias de chuva (ou com sol à pino)...Faça uma doideira: AME!  Você se fará radiante...e iluminará o dia também.



Para Humberto Soares...chuva de bem querer!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

AO MESTRE POETA, COM CARINHO



"Os Poetas são aqueles que, em meio a dez mil coisas que nos distraem, são capazes de ver o essencial e chamá-lo pelo nome."-Rubem Alves



Rubem Alves sempre guiou nossos projetos através de sua linguagem poética que inspira a simplicidade, a ludicidade do cotidiano escolar e possibilidades de redescobrir uma forma de "Encantar a Educação".
Se construímos uma Escola com ares de Alegria e Encantamento, deve-se às palavras de um Mestre que nos convida a cultivar um jardim dentro de si. Boas ideias, boas sementes, bons projetos, precisam florir primeiramente dentro da gente. Só assim poderemos "passear por eles".
A poética de Rubem Alves nos provoca o desejo de promover uma Educação com Asas, que não ensine a voar, mas que encoraje o voo. Pois "o voo não pode ser ensinado"...Ele já nasce dentro dos pássaros.
Compartilhamos com ele a paixão pelos ipês amarelos. O tronco dos Ipês na escola, foram coroados de orquídeas. A florada era motivo de Celebração... Abaixo do ipê em flor um palco, onde a primavera era celebrada com muita Poesia!
As sementes sopradas por Rubem Alves, encontraram na Escola Flor, solo fértil e fecundo, o que possibilitou a apropriação de uma linguagem simples e poética para pensarmos e justificarmos nossas ideias e ações.
Ao longo dos anos, ousamos percorrer em uma escola Rural, ao Sul do Brasil, os caminhos floridos desenhados através das palavras do mestre. Soube ele, como ninguém provocar a nossa FOME e o DESEJO de ENSINAR.
A vontade de ensinar, de ENCANTAR, provocou por consequência na criança, uma admiração pelo professor, pela Escola e por tudo que a envolvia.
As crianças brincaram com as infinitas possibilidades de aprendizado dentro de uma vivência de Alfabetização Ecológica...aproximando-nos de tudo o que é natural, ampliamos as possibilidades de inspiração e encantamento.
Quando expandimos os espaços da "sala de aula" para quintal, jardim, bosque de leitura, parque, horta-jardim, palco, Jardim Encantado, orquidário, mandala de flores, agrofloresta, casinhas de passarinhos espalhadas pelas árvores... Possibilitamos novas descobertas às crianças, que sentadas embaixo das árvores, nas carteiras, ou em volta de algum canteiro, aprenderam a conhecer a hora mais bonita do dia; aprenderam a fazer perguntas e encontrar respostas; aprenderam a conviver com pessoas, plantas e bichos...

“Que lindo e simples resumo da tarefa da educação: plantar jardins, construir cidades-jardins, mudar o mundo, torná-lo belo e manso. Aprender construindo.
Aprender fazendo. Para que as crianças possam brincar. Para que os adultos possam voltar a ser crianças. E espalhar sonhos, porque jardins, cidades e povos se fazem com sonhos ...”. 


Foi ele...um mestre poeta quem nos ensinou.






segunda-feira, 19 de outubro de 2015

AGRADECER E LOUVAR

                            
"Chegar para agradecer e louvar o ventre que me gerou,
o orixá que me tomou, a mão de água e ouro de Oxum
que me consagrou.
Louvar a água de minha terra, o chão que me sustenta, 
o massapê, o palco, a beira do abismo,o punhal do
susto de cada dia.
Agradecer as nuvens que logo são chuva, que sereniza os
sentidos e ensina a vida a reviver.
Agradecer os amigos que fiz e que mantêm a coragem
de gostar de mim, apesar de mim.
Agradecer a alegria, as crianças, as borboletas dos
meus jardins reais ou não.
A cada folha, a toda raiz, as pedras majestosas e as
pequeninas como eu, em Aruanda.
Ao sol que raia o dia, a lua que como o menino Deus
espraia luz e vira meus sonhos de pernas pro ar.
Agradecer as marés altas e também aquelas que
carregarm para outros costados os males do corpo e
da alma.
Agradecer a tudo que canta livre no ar, dentro do mato,
sobre o mar.
As vozes que soam de cordas tênues e partem cristais.
E aos senhores que acolhem e aplaudem esse milagre.
Agradecer, ter o que agradecer, louvar e abraçar."


  Maria Bethânia

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