segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Doce de AMIZADE e NOSTALGIA


"...E o meu encanto precisa de saudade.
E aquela tristeza, na espera do regresso,
que faz com que as minhas penas fiquem bonitas.
Se eu não for, não haverá saudade.
Eu deixarei de ser um pássaro encantado.
E tu deixarás de me amar."

in "A menina e o pássaro encantado"-Rubem Alves

Há quem diga que algumas almas são perfumadas. Então acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Amigos são assim. Perfumam muitas vidas com sua luz e suas cores. E o perfume é tão gostoso, tão branco, tão delicado, que se espalha pelo ar... Minhas lembranças mais preciosas, de alguma forma, mantém esse perfume de bem querer, que, numa temporada, se vestiu de Plätzchen, para me falar de AMIZADE.


Um amigo que veio de longe. Bochechas rosadas, abraço de puro aconchego e um português nada fluente. O alemão Wilfried Surges chegou no Brasil há dez anos. Conheceu a Escola Flor e se encantou. Desde então, nos surpreendeu sempre abusando das suas múltiplas habilidades para fazer a diferença na Escola. Ora entalhando em madeira o nome da escola, na confecção de uma placa. Ora presenteando-nos com um lindo pinheiro, do qual participou do plantio. Ora registrando belíssimas imagens poéticas captadas em nossos momentos de maior encantamento. Sempre emocionado...feliz. Mostrando-se desafiado em fazer o bem por aqui. Renate, sua dear frau e também companheira, embarca no entusiasmo de Wilfried... fazendo-se com ele, presente! Em uma das visitas a Escola, Wilfried mostrou-se nostálgico. Era final de ano e vestíamos a Escola a espera do Natal. Wilfried, com lágrimas no olhos, falou da sua terra, dos costumes natalinos, de uma época em que seus filhos ainda eram pequenos...as canções e o aroma característicos do Natal, espalhavam-se pelo ar. Contou-nos sobre um dos mais tradicionais doces da época natalina, o Plätzchen, bolachinhas dos mais variados tipos e formas e enfeitados de vários jeitos. O preparo do biscoito exige das famílias alemãs muitas horas na cozinha. Geralmente, se a família tem crianças, elas são as que mais se empolgam na confecção dos docinhos, tanto que são elas que ajudam a prepará-los. 

Coube ao término do relato emocionado, um abraço longo e afetuoso e ainda o convite: Trazer para a Escola Flor este aroma de saudade e amorosidade. No dia marcado, nosso amigo chegou munido de saborosas novidades. Casinhas feitas com um delicioso pão de mel, um cheiro gostoso foi deixando no ambiente um rastro perfumado pelo ar... Provocando brilho nos olhos e risinhos de contentamento na criançada. Wilfried trouxe uma grande variedade de confeitos de diferentes formas e cores. Além das casinhas, biscoitinhos avulsos, prevendo o desejo provocado nas crianças, antes da arte concluída. Munidos com um glacê-feito com açúcar de confeiteiro e suco de limão, as crianças foram abusando da criatividade e transformando as doces casinhas, que passaram a ficar coloridas e ainda mais apetitosas. A semelhança fez com que as crianças relacionassem os doces com a CASA DA BRUXA, da história João e Maria. 

Puro encantamento!

Tudo pronto. Nosso amigo passa entre a "Vila confeitada" peneirando açúcar branquinho, ao que as crianças exclamaram encantadas: "Neve!!!" Wilfried embarca na fantasia, com seu sotaque de todos os erres..."Agorra vamos comerrr antes que brrruxa chegue!" Crianças felizes! Nada poderia ser tão delicioso. Wilfried emocionado. Lágrimas de contentamento! Havia emprestado à Escola as cores das suas lembranças...da sua Alemanha. 

As cores da sua saudade...

Renate fotografou cada detalhe. Foram tantos os sorrisos. Das muitas imagens registradas, uma em especial foi escolhida para participar de um Concurso Fotográfico na Alemanha. Passados alguns meses, Wilfried retorna a Escola. Em suas mãos, um embrulho. A emoção quase o impede de falar. Em meio a aproximadamente vinte mil imagens inscritas, uma da vencedoras registrava um "Doce Momento"- A nossa pequena Isaura exibia nas mãos um biscoitinho por ela confeitado. Rosto iluminado com o mais lindo dos sorrisos. 

Sorriso este, premiado, que agora eternizava ali, toda nossa GRATIDÃO!


Para Wilfried e Renate, cuja amizade adoçam a minha Vida!

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sou CRIANÇA...Filha da NATUREZA. Tenho DIREITOS NATURAIS!


Rubem Alves, num de seus belos textos, fala sobre um Congresso em que ele foi na Itália e lá, distribuíram um folheto com os “Dez Direitos Naturais das Crianças” que, como ele, quero compartilhar com vocês.


São eles:




1. Direito ao ócio: Toda criança tem o direito de viver momentos de tempo não programado pelos adultos;



2. Direito a sujar-se: Toda criança tem o direito de brincar com a terra, a areia, a água, a lama, as pedras.

 

3. Direito aos sentidos: Toda criança tem o direito de sentir os gostos e os perfumes oferecidos pela natureza.


4. Direito ao diálogo: Toda criança tem o direito de falar sem ser interrompida, de ser levada a sério nas suas ideias, de ter explicações para suas dúvidas e de escutar uma fala mansa, sem gritos



5. Direito ao uso das mãos: Toda criança tem o direito de pregar pregos, de raspar madeira, de lixar, colar, modelar o barro, amarrar barbantes e cordas, de acender o fogo.


6. Direito a um bom início: Toda criança tem o direito de comer alimentos sãos desde o nascimento, de beber água limpa e respirar ar puro.




7. Direito à rua: Toda criança tem o direito de brincar na rua e na praça e de andar livremente pelos caminhos, sem medo de ser atropelada por motoristas que pensam 
que as vias lhes pertencem.

8. Direito à natureza selvagem: Toda criança tem o direito de construir uma cabana nos bosques, de ter um arbusto onde se esconder e árvores nas quais subir.


9. Direito ao silêncio: Toda criança tem o direito de escutar o rumor do vento, o canto dos pássaros, o murmúrio das águas. 




10. Direito à poesia: Toda criança tem o direito de ver o sol nascer e se pôr e de ver as estrelas e a lua."








Rubem Alves acrescentou o décimo primeiro direito ao qual eu me incorporo: "Todo adulto tem o direito de ser criança..."

Desejo que você  redescubra a delícia que é ser criança...
Porque, como disse Fernando Pessoa, "Grande é a poesia, a bondade e as danças... 
Mas o melhor do mundo são as crianças". 




quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Em dias de chuva...

Que tal fazer mais.... Muito mais. Mais do que reclamar da chuva!? Faça pipocas, faça graça, tome sorvete. Durma até mais tarde. Dê uma espreguiçada generosa. Tome um banho demorado. Dance. Compre flores. Ande descalça dentro de casa. Vista uma roupa folgadona. Retire a maquiagem. Releia o seu livro preferido. Escreva um poema. Coma chocolates. Converse com amigos. Conte um história. Pule poças d’água, suba as escadas no lugar de elevador. Teste uma receita nova. Faça artesanato. Pinte um quadro ou borde uma bagunça. Invente uma música. Escreva um verso. Pratique uma boa ação. Esqueça uma má ideia. Retire a mágoa. Despache a tristeza. Semeie um sorriso. Só por hoje, faça muitas coisas ou não faça nada. Se dê de presente um guarda chuva colorido. Troque a roupa, vire a página, mude a rima, atravesse a calçada, equilibre-se no meio fio da calçada, dobre a esquina, apague o texto, enxugue as lágrimas, quebre os discos, rasgue os bilhetes, troque a música, porque saudade não resolve as ausências, não muda a estação e nem a situação. Coloque a tristeza nos latões e não recicle sentimentos inventados. Use...abuse do poder de recomeçar e experimentar. Ande, ofereça,doe, mude de lugar, pinte, borde, resmungue, cante...mais alto! Repense, reflita, mude, altere, reveja, aceite, revide, resmungue, crie, levante-se, flutue, descanse. Se faça feliz. O depois é para amanhã. Em dias de chuva (ou com sol à pino)...Faça uma doideira: AME!  Você se fará radiante...e iluminará o dia também.



Para Humberto Soares...chuva de bem querer!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

AO MESTRE POETA, COM CARINHO



"Os Poetas são aqueles que, em meio a dez mil coisas que nos distraem, são capazes de ver o essencial e chamá-lo pelo nome."-Rubem Alves



Rubem Alves sempre guiou nossos projetos através de sua linguagem poética que inspira a simplicidade, a ludicidade do cotidiano escolar e possibilidades de redescobrir uma forma de "Encantar a Educação".
Se construímos uma Escola com ares de Alegria e Encantamento, deve-se às palavras de um Mestre que nos convida a cultivar um jardim dentro de si. Boas ideias, boas sementes, bons projetos, precisam florir primeiramente dentro da gente. Só assim poderemos "passear por eles".
A poética de Rubem Alves nos provoca o desejo de promover uma Educação com Asas, que não ensine a voar, mas que encoraje o voo. Pois "o voo não pode ser ensinado"...Ele já nasce dentro dos pássaros.
Compartilhamos com ele a paixão pelos ipês amarelos. O tronco dos Ipês na escola, foram coroados de orquídeas. A florada era motivo de Celebração... Abaixo do ipê em flor um palco, onde a primavera era celebrada com muita Poesia!
As sementes sopradas por Rubem Alves, encontraram na Escola Flor, solo fértil e fecundo, o que possibilitou a apropriação de uma linguagem simples e poética para pensarmos e justificarmos nossas ideias e ações.
Ao longo dos anos, ousamos percorrer em uma escola Rural, ao Sul do Brasil, os caminhos floridos desenhados através das palavras do mestre. Soube ele, como ninguém provocar a nossa FOME e o DESEJO de ENSINAR.
A vontade de ensinar, de ENCANTAR, provocou por consequência na criança, uma admiração pelo professor, pela Escola e por tudo que a envolvia.
As crianças brincaram com as infinitas possibilidades de aprendizado dentro de uma vivência de Alfabetização Ecológica...aproximando-nos de tudo o que é natural, ampliamos as possibilidades de inspiração e encantamento.
Quando expandimos os espaços da "sala de aula" para quintal, jardim, bosque de leitura, parque, horta-jardim, palco, Jardim Encantado, orquidário, mandala de flores, agrofloresta, casinhas de passarinhos espalhadas pelas árvores... Possibilitamos novas descobertas às crianças, que sentadas embaixo das árvores, nas carteiras, ou em volta de algum canteiro, aprenderam a conhecer a hora mais bonita do dia; aprenderam a fazer perguntas e encontrar respostas; aprenderam a conviver com pessoas, plantas e bichos...

“Que lindo e simples resumo da tarefa da educação: plantar jardins, construir cidades-jardins, mudar o mundo, torná-lo belo e manso. Aprender construindo.
Aprender fazendo. Para que as crianças possam brincar. Para que os adultos possam voltar a ser crianças. E espalhar sonhos, porque jardins, cidades e povos se fazem com sonhos ...”. 


Foi ele...um mestre poeta quem nos ensinou.






segunda-feira, 19 de outubro de 2015

AGRADECER E LOUVAR

                            
"Chegar para agradecer e louvar o ventre que me gerou,
o orixá que me tomou, a mão de água e ouro de Oxum
que me consagrou.
Louvar a água de minha terra, o chão que me sustenta, 
o massapê, o palco, a beira do abismo,o punhal do
susto de cada dia.
Agradecer as nuvens que logo são chuva, que sereniza os
sentidos e ensina a vida a reviver.
Agradecer os amigos que fiz e que mantêm a coragem
de gostar de mim, apesar de mim.
Agradecer a alegria, as crianças, as borboletas dos
meus jardins reais ou não.
A cada folha, a toda raiz, as pedras majestosas e as
pequeninas como eu, em Aruanda.
Ao sol que raia o dia, a lua que como o menino Deus
espraia luz e vira meus sonhos de pernas pro ar.
Agradecer as marés altas e também aquelas que
carregarm para outros costados os males do corpo e
da alma.
Agradecer a tudo que canta livre no ar, dentro do mato,
sobre o mar.
As vozes que soam de cordas tênues e partem cristais.
E aos senhores que acolhem e aplaudem esse milagre.
Agradecer, ter o que agradecer, louvar e abraçar."


  Maria Bethânia

Sementes de GRATIDÃO enviadas por Ciça...



domingo, 18 de outubro de 2015

Basta lembrar...


Basta lembrar o quanto algumas pessoas me ajudam com o seu olhar amoroso, ao longo da estrada, sinto um ventinho bom percorrer meu coração e arrepiar a vida toda de contentamento. Um ventinho quente, parecido com o que toca a minha pele quando caminho na mata escura, úmida e cheia de vida. A pele é o lado de fora do sentimento.

Basta lembrar de cada nova muda de afeto que recebo e vejo florescer devagarinho no meu jardim, a lembrança afasta as nuvens momentâneas e deixa o céu à mostra. Faz um sorriso sereno acontecer em mim. Acende uma música que a gente só consegue ouvir quando a palavra descansa.

Basta lembrar que crescer é, no íntimo, um exercício solitário, mas que não estamos sozinhos na sala de aula, saboreio o conforto dessa recordação. Somos mestres e aprendizes uns dos outros, o tempo todo... Estudamos, lado a lado, inúmeras lições, mas também criamos espaço para celebrar os mágicos momentos de recreio. Às vezes, com alguma leveza, até descobrimos juntos um segredo libertador: o aprendizado e o recreio não precisam acontecer separados.

Basta lembrar o quanto as nossas vidas se entrelaçam amorosamente com outras vidas nessa colcha de retalhos coloridos dos encontros humanos, a GRATIDÃO transborda e se espalha, em ondas de amorosidade, por toda a orla do peito. Diante de tantas incertezas, essa verdade perene: o amor compartilhado é o sábio curador.

Basta lembrar, que eu AGRADEÇO. E RESPIRO macio.






À Helena Montenegro, SER de LUZ.
À Fabio...por compassar a minha respiração à sua.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Uma homenagem

A PRENDA
O menino
recebeu a dádiva.
Era o seu dia, assim disseram.
Estranhou:
os outros dias não eram seus?
Se achegou.
Espreitou.
A oferenda,
era coisa nenhuma
que nem parecia existir.
– O que é isso?, perguntou.
– É uma prenda, responderam.
Que prenda poderia ser
se tinha forma de nada.
– Abre.
Abrir como
se não tinha fora nem dentro?
– Prova.
Como provar
o que não tem onde se pegar?
Olhou melhor.
Fixou não a prenda,
mas os olhos de quem a dava.
Foi, então:
o que era nada
lhe pareceu tudo.
Grato,
retribuiu com palavra e beijo.
O que lhe ofereciam
era a divina graça do inventar.
Um talento
para não ter nada.
Mas um dom
para ser tudo.
Mia Couto

Aos mestres que me ofereceram a "divina graça do inventar",
a minha GRATIDÃO.